Nos últimos meses fui algumas vezes ao estádio Luigi Ferraris ver o Genoa jogar. Fica em Marassi, espremido entre o leito do Bisagno, uma via expressa, uma prisão e uma villa tombada do século XIV, com quatro torres de tijolo vermelho plantadas nos cantos feito torres de xadrez. Essas torres não são enfeite. Subiram entre 1987 e 1989, quando Vittorio Gregotti reconstruiu o campo para a Copa, e são a coisa mais honesta que a cidade tem sobre o que aquele verão foi de verdade. Gênova ficou com um estádio que as pessoas ainda admiram. O resto da Itália ficou com outra coisa.
Existe um artigo da Lauren Leek chamado How Google Maps quietly allocates survival across London’s restaurants. Li ele oito meses depois de me mudar para Gênova e não consegui parar. A premissa é precisa e um pouco desconfortável: a forma como o Google Maps ranqueia restaurantes não tem quase nada a ver com qualidade da comida. É sobre proeminência algorítmica, um composto de quantidade de avaliações, velocidade de acúmulo de avaliações, presença na web e sinais de interação. Estabelecimentos que acumulam mais avaliações ranqueiam mais alto. Um rank maior traz mais visitantes. Mais visitantes trazem mais avaliações. O ciclo não se importa se a comida é boa.
Se você me perguntasse alguns meses atrás qual era o ápice do mundo culinário, eu responderia sem hesitar: Brasil e Espanha. Sendo um brasileiro criado em solo espanhol, meu paladar foi forjado entre a alma e a fartura da comida brasileira e a técnica impecável e o respeito pelo produto que definem as cozinhas da Espanha. Eu achava que já tinha visto e provado o melhor.
Mas então a vida me trouxe para a Itália. Mais especificamente para Gênova, entre o Mar da Ligúria e as montanhas, onde o cheiro de manjericão fresco e de focaccia saindo do forno parece permear as paredes da cidade. E a pergunta que não quer calar permanece: a gastronomia italiana é realmente tudo o que dizem?
Preciso contar a vocês sobre um clube de futebol que morreu e se recusou a permanecer morto.
Não metaforicamente. Literalmente. Em 4 de maio de 1949, um avião Fiat G.212 que transportava todo o elenco do Torino FC colidiu com a Basílica de Superga, nos arredores de Turim. Trinta e uma pessoas morreram. O time que havia conquistado cinco títulos consecutivos da Serie A, a espinha dorsal da seleção italiana, o maior clube que a Europa já vira, foi obliterado em um instante.
“Bon sabbo à tutti! 🏴 !” (Feliz sábado a todos!)
Recentemente me mudei para a Itália, especificamente para a Ligúria, onde Gênova se assenta como uma sentinela marcada vigiando o Mediterrâneo. Esta tarde, 20 de dezembro, fiquei no coração da cidade para testemunhar o Confeugo. É uma cerimônia de fogo, profecia e fantasmas linguísticos, e me forçou a olhar além da versão de cartão postal da Itália para algo muito mais abrasivo e real.