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Meu desabafo sobre os idiomas que falo (e por que o espanhol é o meu favorito)

Este post foi originalmente escrito em inglês. A tradução pode não refletir 100% das ideias originais do autor.

Com minha recente mudança para a península italiana, tive um desafio muito interessante entre outros: tive que aprender italiano. Mergulhei nos estudos de gramática, consumi diversos materiais audiovisuais e hoje me encontro na Itália usando essa língua maravilhosa.

Com isso, surgiu a seguinte conversa:

  • “Quais idiomas você fala?”
  • “Falar fluentemente? Espanhol, português, inglês e italiano. Catalão eu posso tentar um pouquinho, mas não contaria”
  • “Uau, então você fala fluentemente 4 idiomas, certo?”
  • “Sim… quatro…”

E honestamente eu não tinha parado para pensar nisso. Quatro idiomas. Não é absolutamente nada de outro mundo, mas eu não tinha essa percepção de que já fazia um tempo que eu não era apenas bilíngue. Português é a língua de onde nasci, espanhol de onde fui criado, italiano de onde estou agora e inglês… bem, inglês foi um mal necessário para quem trabalha com TI e gosta de viajar. Mas quero compartilhar minha perspectiva sobre alguns aspectos desses quatro idiomas que não têm necessariamente nenhuma base filológica ou científica. São meus dois centavos sobre como vejo cada um desses idiomas.

Braaaazil!

Vamos começar do começo: Português Brasileiro. Sim, especifico a variante porque há uma diferença abissal entre as versões europeia e brasileira, especialmente em nível fonético, já que hoje sou capaz de entender o francês falado melhor do que um português falando. E não estou exagerando, isso realmente aconteceu. O ponto que tenho que destacar sobre o português brasileiro é a quantidade absurda de sinônimos que podem existir para uma única palavra. Por exemplo:

Grana, bufunfa, tutu, cascalho, dindim, pila, verba, conto, faz me rir…

Tudo isso significa dinheiro. E se focarmos em palavras de cunho sexual, podemos chegar a centenas de variações para falar sobre o pênis, e não estou exagerando:

1.caralho, 2. pica, 3. rola, 4. piroca, 5. cacete, 6. pau, 7. pinto, 8. peru, 9. benga, 10. manjuba, 11. jiromba, 12. jeba, 13. vara, 14. varão, 15. mastro, 16. ferramenta, 17. instrumento, 18. ferro, 19. trabuco, 20. canhão, 21. torpedo, 22. cajado, 23. porrete, 24. bastão, 25. tora, 26. verga, 27. cobra, 28. jiboia, 29. anaconda, 30. minhoca, 31. passarinho, 32. pombo, 33. pomba, 34. banana, 35. pepino, 36. mandioca, 37. nabo, 38. beringela, 39. cenoura, 40. salsicha, 41. bilau, 42. amigão, 43. garoto, 44. documento, 45. bráulio, 46. coisa, 47. negócio, 48. bingulin, 49. piupiu, 50. bicho, 51. pinto sujo, 52. peba, 53. linguiça, 54. salame, 55. chouriço, 56. linguição, 57. marreta, 58. martelo, 59. picareta, 60. pica das galáxias, 61. cobra cega, 62. vergalhão, 63. picão, 64. pica pau, 65. pinto bravo, 66. caceta, 67. caralhão, 68. pirulito, 69. estaca, 70. picolé, 71. cacete de agulha, 72. bimba, 73. zeca, 74. peça, 75. pino, 76. tarugo, 77. canudo, 78. canivete, 79. bife, 80. cacuá, 81. manjanjola, 82. manguari, 83. pirulito, 84. pinto mole, 85. pinto duro, 86. pica grossa, 87. jeba de aço, 88. vara de pescar, 89. cobra coral, 90. jeba tora…

Claro, quanto mais você avança, mais excêntrica é a palavra, mas em geral qualquer brasileiro vai entender pelo contexto o que significa. Isso provavelmente acontece por causa da miscigenação do povo brasileiro, assim como o tabu de falar palavrões forçando as pessoas a recorrerem a qualquer sinônimo existente.

Eu amo a variedade da língua portuguesa, a frase não precisa ter o formato ideal, a conjugação ideal, ou a estrutura ideal, mas o brasileiro entende. O que importa é a mensagem, não a forma. Isso é arte.

Se eu tivesse que levantar um contraponto negativo, algo que vejo é que essa liberdade poética do brasileiro é linda na língua falada, mas na língua escrita é um pesadelo. Isso e o baixo nível da educação básica brasileira fazem dela a língua onde vejo mais pessoas (por uma enorme margem) dos quatro idiomas assassinando a gramática da forma mais cruel possível.

Spain!

Vamos falar sobre o Espanhol, mais precisamente sua forma ibérica. Aqui vou começar pelo ponto que vejo como negativo: o vocabulário é, por uma enorme margem, limitado. Não é raro ter a seguinte conversa com minha esposa:

  • “Como se diz isso em espanhol?”

  • “Droga… acho que esse termo não existe no castelhano”

  • “Verdade, realmente não existe”

E a pior parte? NÃO EXISTE MESMO. Vou dar exemplos para não ficar só na teoria:

Sprezzatura (Italiano): A arte de fazer algo difícil parecer extremamente fácil e sem esforço. Em espanhol simplesmente não existe. O espanhol não tem um termo para esse “charme da desleixado planejada”.

Tradeoff (Inglês): Aquela situação onde você ganha algo mas perde outra coisa. Precisam explicar todo o conceito de “compensación” ou “intercambio” e por isso usam o termo em inglês diretamente.

Saudade (Português): O exemplo clássico. Em espanhol se usa “echar de menos” (verbo) ou “añoranza”, mas nenhum dos dois carrega o peso de um substantivo abstrato e a profundidade existencial da “saudade”.

E por que comecei com o ponto negativo do espanhol? Porque para mim esse é O ÚNICO PONTO NEGATIVO. O espanhol é de longe meu idioma favorito dos quatro. É o idioma mais democrático: no Brasil, a forma como você fala revela sua classe social em 2 segundos, enquanto na Espanha uma pessoa rica criada nas melhores escolas de Madrid e uma pessoa de baixa renda de algum “pueblo” falam a mesma língua, sem acrescentar ou tirar nada. Outro ponto: a pronúncia. O que está escrito é o que você lê, ponto final. Sem truques, sem mudanças, sem exceções. Isso pode fazer com que os espanhóis tenham dificuldade em assimilar sons estrangeiros, mas é algo que para mim torna o espanhol tão maravilhoso.

O espanhol não tem “letras escondidas” ou “pegadinhas”. Se está escrito “mañana”, você lê “mañana”. Não tem um “H” fantasma que muda de som dependendo do humor do falante, como no francês ou no inglês.

Essa “lógica de ferro” é o que torna o espanhol o idioma mais acolhedor do mundo. Ele te dá as regras no primeiro dia e cumpre o contrato até o fim. É uma língua sem “letras miúdas”.

É o idioma que uso diariamente em casa e não me arrependo.

England

Se com o espanhol há uma falta de vocabulário, com o Inglês é o contrário. A quantidade monstruosa de vocabulário em inglês é absurda. Você pode nomear qualquer coisa que exista com a língua de Shakespeare. Tanto que os anglicismos estão invadindo cada vez mais outros idiomas. Há uma questão de dominação cultural e econômica, mas é inegável que o inglês tem termos sob medida para cada situação. Vou ilustrar:

Serendipity. O ato de encontrar algo valioso ou agradável por puro acaso, enquanto você procurava por algo totalmente diferente.

Petrichor. Aquele cheiro característico de terra que sobe do solo seco logo após a primeira chuva.

Sonder. A súbita e profunda percepção de que cada pessoa que passa por você na rua tem uma vida tão complexa, vívida e cheia de problemas quanto a sua.

Se em nível gramatical e de língua culta o inglês é surpreendente, seu uso para conversas cotidianas e small talk me parece a coisa mais feia e horrível que existe. Uma conversa entre dois falantes nativos de inglês é recheada de “Yeah”, “Ok”, “Sure”. Para ser justo, falantes não nativos de inglês que dominam o idioma, na minha visão, falam de forma superior aos próprios nativos no dia a dia. Dois nativos falam como se fossem dois pacientes recentemente lobotomizados. Aqui vai um exemplo:

Nativo A: “Hey.”

Nativo B: “Hey, man.”

Nativo A: “How’s it going?”

Nativo B: “Good. You?”

Nativo A: “Good. Good.”

Nativo B: “Yeah?”

Nativo A: “Yeah. Weather’s nice, huh?”

Nativo B: “Sure is. Pretty cool.”

Nativo A: “Yeah. Totally.”

Esse tipo de conversa dá vergonha alheia, de verdade.

Italia!

O último e mais recente dos meus idiomas é o Italiano. Sim, vou afirmar o óbvio: ESSA LÍNGUA É LINDA PRA CARALHO. Puta que pariu. Tom, gestos, cadência, vocabulário. Meu deus, é uma obra de arte. A expressão “música para meus ouvidos” foi feita por alguém que pisou na Itália pela primeira vez. Isso se falarmos do italiano cotidiano. Se chegarmos a um nível de italiano culto e poético, a beleza se multiplica.

Se é tão lindo, por que não é meu idioma favorito?

Bom então, a gramática italiana é um porre. Sou uma pessoa lógica, e amo o espanhol porque ele é lógico. Mas o italiano não é. Quase toda regra tem uma exceção. Para qualquer um aprendendo, isso é um pesadelo. Vamos falar sobre partes do corpo. Em qualquer língua lógica, se algo é masculino no singular, continua masculino no plural, certo? Em espanhol: el brazo > los brazos. Simples.

Em italiano? O italiano quer ver seu mundo pegar fogo. Você aprende que “Il braccio” (o braço) é masculino. Aí você, inocente, pensa: “Tudo bem, o plural deve ser i bracci”. Errado! O plural é “Le braccia”.

Sim, o braço muda de sexo quando vira plural! Nasce homem e morre mulher. E não é só o braço: “Il dito” (o dedo) vira “Le dita”. “L’uovo” (o ovo) vira “Le uova”. É uma crise de identidade de gênero gramatical que não faz o menor sentido biológico ou lógico.

Se a palavra masculina começa com uma consoante normal, você usa “Il”. Até aí, tudo bem. Mas se a palavra decide começar com “Z” ou com um “S” seguido de outra consoante (a temida S impura), o italiano entra em pânico. Você não pode dizer “Il studente”. Deus me livre! Você tem que dizer “Lo studente”.

E o plural? O plural de “Il” é “I”. Mas o plural de “Lo” é… “Gli”. Sim, essa combinação de letras que parece um engasgo.

Então você tem:

  • Il gatto (O gato) > I gatti (Os gatos) Lógico.

  • Lo zaino (A mochila) > Gli zaini (As mochilas) Surto psicótico.

Sem falar nos verbos. No passado, você tem que escolher entre usar o auxiliar “ter” ou “ser” (Avere ou Essere). “Eu comi”? Ho mangiato. “Eu fui”? Sono andato. Por quê? “Ah, porque verbos de movimento usam Essere”. Aí você olha para o verbo “Andar” (Camminare)… e ele usa Avere!

Maa daaai, vaffancuuuulo!!!

Mas ataques de raiva à parte, o italiano é isso mesmo: uma língua para ser sentida, não entendida. Talvez faça parte da sua beleza. Quem sabe.

Falar quatro idiomas não é só trocar palavras, é trocar de personalidade. Em espanhol sou lógico, em inglês sou técnico, em italiano sou apaixonado e em português sou caótico.

Com isso quero encerrar meus dois centavos sobre esses quatro idiomas. Poderíamos mergulhar em um nível sociológico e cultural sobre como diferentes culturas moldaram essas línguas, mas meio que foda-se, né?

CIAOOO!

Ciao