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Beber veneno para continuar sendo útil: o aborto no Velho Oeste

Quem me conhece sabe que meu filme favorito é Unforgiven (1992), um western dirigido, produzido e atuado por Clint Eastwood. Disfrutei com a maestria da primeira temporada da série Westworld (2016). O final de Red Dead Redemption (2010) me tocou pessoalmente. Amo a sensação de estar no mundo de Red Dead Redemption 2 (2018). Além disso, tenho uma mini coleção de quadrinhos TEX (que li menos do que gostaria). O que quero dizer é que um velho oeste para mim tem um encanto. Mas não pensem que meu encanto é com mundos “a lo” John Wayne, de mocinhos incorruptiveis que luta contra o mal (sendo o mal indigenas e mexicanos). É o encanto do post-western: um genêro que desmistifica o pistoleiro, onde a ambiguedade moral reina e a violência de uma terra sem lei está tão impregnado nos personagens como o lamaçal incrustado nas botas.

Com esse gosto pessoal agora descrito, comecei a ver Deadwood (2004), uma série da HBO ambientada em 1876, em um assentamento mineiro que até então estava fora das leis dos Estados Unidos. Doenças, violência, moralidade totalmente ambigua, sujeira, etc. Tudo o que os filmes classicos de bang bang ignoravam se encontram aqui. Exceto por uma coisa que sempre existiu, tanto no genero como na realidad em si, também aparece na série: as prostitutas.

Bordel

Em Deadwood, no entanto, esse post-western dá um passo além do niilismo dos pistoleiros e joga na nossa cara a carne mais barata do acampamento. Em um dos episódios, a personagem Trixie, uma prostituta, solta uma afirmação que me paralisou diante da tela pela sua absoluta falta de drama: ela comenta, com a frieza de quem relata uma tarefa ginecológica rotineira e entediante, que já interrompeu sete gravidezes tomando chá de poejo e cohosh. Não há monólogo lacrimoso, apenas o olhar endurecido e vazio de quem dá de ombros e pensa “afinal, a vida é assim, não é?”. Sete vezes bebendo veneno botânico em um quarto imundo para provocar o próprio aborto.

Aqui vale uma explicação: chá de poejo (pennyroyal) e cohosh era uma combinação botânica altamente tóxica utilizada na medicina popular do século XIX como um poderoso abortivo químico. O poejo atuava estimulando o fluxo menstrual, mas carregava a pulegona, uma substância altamente hepatotóxica que destruía diretamente as células do fígado. O cohosh (principalmente o cohosh azul) funcionava como um uterotônico severo, injetando alcaloides no organismo que provocavam contrações uterinas violentas e vasoconstrição coronária, forçando o útero a expelir o feto enquanto disparava a pressão arterial. Misturadas, essas ervas operavam no corpo da mulher como uma prensa biológica. Não havia precisão ginecológica: o método consistia em induzir um envenenamento subletal forte o suficiente para que os espasmos musculares e a toxicidade quebrassem a gestação por força bruta. Era uma roleta russa química onde a margem entre abortar e sofrer uma falência hepática ou cardíaca fatal era terrivelmente estreita.

Essa pequena pílula de realidade destrói qualquer romantismo que o entretenimento tentou nos vender por um século. No faroeste clássico, a prostituta foi domesticada sob o róculo simpático da garota de saloon: uma donzela sorridente, de espartilho de seda e penas coloridas na cabeça, que flutua pelo bar distribuindo flertes e servindo de descanso para os heróis caubóis. A ficção comercial substituiu a opressão pelo charme, transformando o que era uma violência biológica diária em um fetiche de fundo de tela.

Mas as mulheres reais da fronteira de 1870 não habitavam um filme de John Wayne. Elas faziam parte de uma engrenagem hipercapitalista e selvagem onde seus corpos eram tratados exatamente como as minas de ouro locais: uma infraestrutura material a ser explorada de forma acelerada até o esgotamento total da veta. Para entender o tamanho do abismo entre o mito da televisão e o sangue real incrustado no chão de madeira desses bordéis, precisei sair da ficção e mergulhar nos arquivos históricos trazidos pela historiadora Anne M. Butler em sua obra fundamental, Daughters of Joy, Sisters of Misery: Prostitutes in the American West, 1865–1890. E o que encontrei ali enterra de vez o caubói de terno limpo.

Capa

A economia do ouro moldava a lógica dos bordéis de uma forma muito mais profunda do que os filmes de bangue-bangue baseados em tiroteios limpos tentam sugerir. No Velho Oeste, a mentalidade era puramente extrativista: tratava-se de sugar o recurso natural de maneira agressiva até que a veta secasse por completo, e com o corpo das mulheres o sistema operava sob a mesmíssima engrenagem. Anne Butler joga luz sobre essa dinâmica ao expor, por exemplo, o caso de proprietários de bordéis no condado de Hemphill, no Texas, que se casavam com as prostitutas de suas próprias casas para consolidar a posse legal de cada centavo gerado por elas. Longe de ser um ato de resgate ou afeto, o matrimônio ali era um contrato de exploração perpétua onde os maridos exigiam que suas esposas continuassem nas ruas para engordar o caixa do negócio. O massacre financeiro era puramente matemático e abusivo. Enquanto um hóspede masculino comum em Wichita pagava cerca de seis dólares por semana por hospedagem, a prostituta pagava catorze dólares pelo mesmo espaço, além de ser obrigada a entregar um terço de tudo o que faturava com os clientes para a gerência da casa. Elas eram asfixiadas por uma ciranda financeira cruel, desenhada para que nunca acumulassem capital suficiente para comprar a própria liberdade.

É dentro dessa lógica de produção industrial que a gravidez deixava de ser uma questão íntima ou um dilema moral para se transformar em um defeito catastrófico na linha de montagem. Nos acampamentos de fronteira, o valor de um indivíduo era medido estritamente por sua capacidade de gerar receita diária. Um minerador doente não extraía minério; uma mulher grávida significava maquinário parado, perda de lucros e custos passivos para o dono do negócio. Portanto, o coquetel de poejo e cohosh que Trixie engolia em Deadwood não era o exercício de um direito reprodutivo em uma terra de pioneiros livres; era a manutenção industrial forçada, um reparo químico brutal e doloroso exigido pelo sistema para que o ativo biológico voltasse a produzir o mais rápido possível.

Se a ficção nos faz crer que esses chás eram remédios caseiros administrados com alguma doçura romântica entre companheiras de infortúnio, os arquivos judiciais levantados por Butler arrancam essa última camada de ilusão com violência. O aborto na fronteira era uma roleta russa de infecções, hemorragias e morte. Em Tombstone, registros revelam que uma prostituta mais velha, que gerenciava uma pequena operação, matou uma colega jovem durante um aborto rudimentar mal-executado nos fundos do estabelecimento. Em Black Hills, no ano de 1884, o jornal local detalhou o julgamento de Elizabeth Orr por homicídio decorrente de um aborto ilegal. A crueza era tamanha que, em Laramie, no ano de 1877, a prostituta Mary Kean foi processada criminalmente pelo Estado sob a acusação explícita de ocultar o cadáver de um feto, abandonando os restos de uma dessas interrupções forçadas sem lhe dar um enterro legal. O tecido social da fronteira tolerava o aborto para manter as consequências biológicas do mercado do sexo invisíveis para as famílias respeitáveis, mas punia as mulheres quando o sangue transbordava para o espaço público.

O destino final daquelas que sobreviviam a essa rotina de envenenamento voluntário era o descarte biológico programado. A juventude era o único capital dessas mulheres, e o auge de suas carreiras raramente passava dos trinta anos. Ao envelhecerem ou apresentarem sequelas físicas provocadas pelos abortos e pela dissipação, elas eram sumariamente expulsas dos saloons centrais e rebaixadas para os cribs, barracos miseráveis em becos imundos.

Cribs

Esse envenenamento voluntário e sistemático não era uma exceção desesperada, mas a engrenagem central que mantinha o mercado do sexo funcionando em uma terra desprovida de qualquer rede de assistência médica, social ou de bem-estar para os vulneráveis. Passar por esse calvário repetidas vezes era o verdadeiro carrasco silencioso das mulheres do Oeste, uma violência ginecológica oculta que cobrava o seu preço no contraturno do prazer dos clientes. Diante de uma sociedade que não oferecia alternativas econômicas, a escolha que restava a essas jovens era de uma brutalidade atroz: ou sabotavam o próprio organismo com misturas perigosas, ou enfrentavam a miséria absoluta provocada pela perda imediata de seu valor comercial na linha de produção do burdel. O aborto rudimentar era o rito de passagem mais frequente e perigoso na fronteira, tanto que, para as poucas que conseguiam sobreviver ao desgaste do ofício e cruzar a barreira dos trinta anos, a única forma de continuar subsistindo na indústria era assumir o próprio papel de abortista do acampamento, perpetuando o ciclo e administrando o mesmo risco para as garotas mais jovens que iniciavam a jornada.

Quando pensamos no Velho Oeste, a imagem icônica que a cultura pop nos empurra goela abaixo é sempre a do caubói solitário, o pistoleiro indomável com seu revólver na cintura, moldando o destino de uma nação à base de pólvora. No entanto, a verdade histórica que o livro de Anne Butler escancara é que esses homens eram, na melhor das hipóteses, agentes temporários de uma expansão violenta e predatória. Quem realmente pagou o preço mais alto para fixar as fundações dessas sociedades na lama da fronteira foram as mulheres que a história oficial preferiu apagar. E não estamos falando de uma narrativa romantizada de sororidade perfeita; a própria Butler faz questão de pontuar que a realidade dessas mulheres era tão brutal que até mesmo as relações entre elas eram frequentemente marcadas pela desconfiança, pela rivalidade e pela violência gerada pelo próprio confinamento do bordel. Ainda assim, eram elas que se juntavam no meio da madrugada para limpar o sangue, vestir com dignidade os corpos das companheiras mortas e cotizar os poucos dólares que tinham para garantir um túmulo, assumindo uma responsabilidade fúnebre e humana que os homens e o Estado simplesmente ignoravam. Elas foram pilares institucionais involuntários de um Oeste que consumia suas vidas enquanto fingia que elas não passavam de fantasmas invisíveis.

Existe uma ironia perversa no fato de que o corpo e o capital dessas mulheres foram sistematicamente utilizados para erguer e financiar a infraestrutura das cidades (por meio de multas arbitrárias que pavimentavam ruas e erguiam prédios públicos), para que, assim que a dita “civilização” se consolidasse, elas fossem as primeiras varridas para as margens do esquecimento. A sociedade fronteiriça nunca as aceitou de verdade: sua visibilidade barulhenta era apenas a tolerância conveniente de um mercado lucrativo. Quando a estabilidade chegou, a rigidez moral puritana tratou de empurrá-las para o ostracismo definitivo, apagando seus nomes dos registros de progresso do território. O caubói ficou com o glamour, o heroísmo e os monumentos nas telas de cinema. Elas ficaram com o anonimato das valas comuns, o organismo destruído pelo poejo e o apagamento institucional.

Por tudo isso, da próxima vez que eu der o play em um filme de post-western ou cavalgar pelos cenários virtuais de Red Dead Redemption, meu olhar já não vai mais se deslumbrar com o brilho dos duelos ao sol. Vou me lembrar de Trixie. Vou me lembrar de que por trás de cada saloon pitoresco ou cidadezinha poeirenta do Oeste americano existe o sacrifício biológico de mulheres que precisavam engolir veneno só para ter o direito de continuar existindo no dia seguinte. Elas não foram as donzelas sonridentes dos filmes de John Wayne, nem os heróis incorruptíveis de terno limpo. Foram as verdadeiras, trágicas e esquecidas sobreviventes da fronteira americana.

Trixie